Boa Tarde, gente linda! Para quem está antenado no Avontade, sabe que eu já voltei há um tempinho da Europa e, como estou sem abordagens temáticas acerca das minhas viagens literais, posto aqui as minhas outras 'viagens'. Espero que tenham uma boa leitura. Se curtirem mesmo, compartilhem, comentem e deem uma acessada em meu blog: Sincretindo (Beijos de luz! Boa leitura. Dávs) ---
Um por ter meu coração.
Outro, por ter meu coração, alma e
pensamento.
Com afeto.
Para C. e D.
O Amor é uma coisa mesmo incrível;
diferente da paixão, que é um sentimento efêmero, explosivo,
carnal e possessivo e que se esvai, que passa como um rio; ele é
benigno, paciente e o seu peculiar altruísmo é capaz de unir-se a
alguns aspectos da paixão e, mesmo assim, ainda ter a capacidade de
não se deixar corromper.
(...)
Juntos estavam os dois ali: a olhar
para o céu. "Está vendo aquele conjunto de estrelas?",
ela lhe indagou. "Pois é, dou todas elas para você. Dou todas
elas, porque você é parte do meu céu. Cielo. Célio: que do latim,
também significa céu. Uma pena não ter tido tempo de te dar outro
conjunto de estrelas, enquanto estávamos no hemisfério norte. Só
assim, em qualquer dos hemisférios em que você estivesse e olhasse
para o céu, poderia se lembrar de mim. De nós." Arrematou.
Rioda ficou sem saber o que falar, sem
saber o que fazer. Olhou para Clara, com aquele típico olhar
misterioso e com aquele meio sorriso em que despontavam, em cada
extremidade de sua boca, duas covinhas.
Havia uma ligação muito intensa entre
os dois na qual nem ela, e muito menos ele, poderiam se dar conta e
pior: explicar. Trocaram o tal olhar, ele a puxou para si e deu-lhe
um beijo terno na testa. Permaneceram na sacada de um hotel qualquer
de uma das tão famosas ilhas de Cabo-Verde, a contemplar aquele
manto negro; com seus peculiares pontos de luz que era o Célio; em
uma dessas noites tipicamente quentes e com aquela suave brisa que ao
tocar nossas faces, nos deixa mais contentes conosco e com o universo
que nos cerca e com uma vontade a mais de amar, de deixar-se levar.
- Vamos dar uma volta na praia? - Rioda
lhe perguntou, enquanto a puxava mais para perto de si e passava a
mão pela sua face, tirando uma mecha de cabelo que cobria o seu
rosto. - Eu estava com saudades.
- Vamos! - Ela desviou o assunto, não
queria ter de dizer-lhe o tanto que havia sentido falta daquela
companhia, das risadas. Daquele abraço.
Clara era daquelas garotas misteriosas,
simples e com uma genuína franqueza, capaz de intimidar o mais
sincero súdito de um rei. Ao mesmo tempo que conseguia ser direta,
escondia por trás de sua simulada auto-confiança, uma baixa
auto-estima e uma sensibilidade que só era ativada e demonstrada
para as pessoas mais próximas de si. Só quem a conhecia bem, sabia
que tudo aquilo que ela demonstrava, não passava de uma farsa. Mas
ela tinha personalidade e isso podia ser visto, sem olhares muito
críticos, por qualquer um através da forma como explicitava suas
ideias, como construía seus argumentos e através de seu humor.
Estava quente. Muito, até. Ela usava
um longo vestido branco. Um colar muito grande e colorido, e os seus
cabelos cacheados se emaranhavam ao confrontarem-se com aquela brisa,
que já estava virando ventania: um vendaval de emoções que
afloravam em seu coração e em um pseudo-universo, criado por si.
Por outro lado, Rioda era o contraponto
em relação à maioria das características de Clara: um anagrama
quase indecifrável para ela. Rioda podia ser muitas personificações
de diversas coisas que ela queria para si. Que sonhara durante tanto
tempo. Que ansiara talvez, por segundos. Era aí que o famoso ditado
popular de "os opostos se atraem", se encaixava em relação
aos dois.
Tímido, de poucas palavras, conciso e
ao mesmo tempo subjetivo. Alto, de um olhar significativamente cor de
abismo, opaco, e muito diferente dos de Clara; sem luz. Ele havia
sofrido bastante, fato. Os dois haviam. Esta só podia ser a
explicação para a harmonia na relação dos dois.
Chegaram à praia, correram, brincaram,
riram. Já eram amigos há tanto tempo... cinco, seis anos talvez.
Clara sentia o que ele também sentia, mas ambos eram muito amigos
para falarem um ao outro o que acontecia dentro do estômago de cada
um, todas aquelas breves vezes em que se encontravam.
- Você volta quando para o Brasil? -
Ele lhe perguntou, um tanto triste, mas disfarçando bem.
- Amanhã - Lhe respondeu com aquele
sorriso maroto, que só ela sabia fazer em ocasiões em que dentro de
si, o coração queria gritar - Meu voo teve escala aqui, desculpa
por não dizer quanto tempo ia ficar. - Ela sabia que se houvesse
dito que eles teriam apenas 24 horas para desfrutarem juntos de tão
pouco tempo, ele não iria nem arriscar vê-la. Ele era assim:
complicado, misterioso, sistemático.
- Acho que já devemos voltar para o
hotel, estou meio cansada da viagem... - Ela continuou enquanto
puxava a mão dele, fazendo-o tropeçar e cair no chão. Ela riu
alto, enquanto saía correndo dele a lhe chamar de parvo. Ele gritou
um: "Chiiiii, você me paga!" e correu atrás dela.
Ele sempre a chamava de 'Chi', sabe-se
lá onde ele tinha tanta criatividade para dar-lhe apelidos, mas
sempre inovava com diversos: em crioulo, em português brasileiro. Em
inglês. Outra característica de Rioda era a sua inteligência
inter-textual, artística, sagaz. Uma das coisas que tanto
conquistava Clara, era esse seu outro poder: o de saber envolver
coisas práticas à teóricas.
Ao chegarem ao hotel, Clara resolveu
abrir uma champagne e os dois começaram a beber. Contaram tudo - ou
quase tudo - um ao outro o que havia se passado durante aquele tempo:
seus amores, amizades e experiências.
O que restou além da garrafa vazia de
um Dom Pérignon, foram dois amigos que também descobriram ser
amantes um do outro. Os dois estavam novamente na sacada quando
aconteceu. Ela fumava tabaco enquanto devaneava na imensidão negra
daquele céu, nos olhos dele, também negros e na música dos dois,
que tocava ao fundo: um kizomba de Nelson Freitas, "Something
good".
Ele lhe disse que precisava ir e, no
segundo beijo que foi dar em sua face, um outro beijo súbito - porém
sutil - nos lábios de ambos, aconteceu. Quando se deram conta, já
estavam na cama, olhando para o teto do quarto a brincarem com as
sombras que o abajur projetava através daquela meia luz. Penumbra: o
contraste perfeito para designar Clara e Rioda. Claridade e abismo.
Luz e escuridão. Branco no preto. Óleo e água. Contraste sem fim.
Amaram-se e amaram-se uma vez mais.
Clara queria estar dentro do coração dele. Dos olhos dele. Em seus
lábios. Já Rioda, como um rio que passa, devastando tudo e
escondido através de tantos anagramas que poderia ser para ela, ser
idealizado por ela; só a queria para lhe iluminar um pouco. Ele
queria estar ali dentro dela... para sempre.
Clara passava seus dedos sobre aquela
pele macia, quente e era como se as pontas de seus indicadores,
pudessem "ouvir" cada batida do coração dele, que agora
tão perto do dela estava. Eles tinham pouco tempo e um turbilhão de
ideias começou a aflorar na mente dela. Tentou não pensar...
afinal, não era mesmo preciso.
De manhã quando ela acordou, havia um
bilhete ao lado da cama dizendo:
"Foi ótimo revê-la, te vejo no
Brasil, my nigga. Um beijo. Com afeto, Rioda".
Aquilo foi um baque, mas ela já sabia
mesmo que não podia esperar muito. Não naquela situação, Não
dele. Não daquele momento. Arrumou suas malas, dirigiu-se ao
aeroporto de São Vicente e no caminho, dentro do táxi... só
conseguia chorar. Chorava. Chorava tanto, que suas lágrimas só a
faziam lembrar de Rio. Um rio vasto, longo. Cheio. Tão cheio quanto
os seus olhos. Olhos cheios de lágrimas. Rio... Cheio. Rioda.
"Rioda", pensou alto.
E ela só conseguia - além de chorar -
pensar nas estrelas, no efeito do champagne, no poder dos seus dedos,
daquela faísca luminosa naqueles olhos quase sem luz e daquelas duas
covinhas que apareciam todas as vezes que ele resolvia sorrir para
ela.
"Rioda", pensou novamente,
mas desta vez sem coragem e sem forças para repetir aquele nome uma
vez mais.
Um Rio, duas covas, um anagrama.
E muitas lágrimas.

Que profundo!
ResponderExcluirHahaha. Acho que todo tipo de paixão faz com que a gente se inspire para escrever coisas bonitas. E profundas. Fico feliz que tenha gostado! Beijos de luz.
ExcluirDavs.
Nossa, quanto talento! Parabéns, moça. Voce escreve divinamente.
ResponderExcluirAhhhh! Acho qur tudo que fazemos com o coração, com a alma e com paixão, sai bem. Fico imensamente grata por ter partilhado de todos esses sentimentos comigo, através de minha escrita.
ExcluirFique bem. Até o próximo domingo! :)
lindo, parabéns e obrigada por compartilhar com a gente
ResponderExcluirbjs
tititi da dri
Eu é que agradeço por você ler. :)
ExcluirUm beijinho!